Em uma pequena propriedade da comunidade de Boi Novo, no município de Valente, Território do Sisal, a história de uma família mostra como a combinação entre experiência, dedicação e assistência técnica pode transformar vidas e fortalecer a agricultura familiar no Semiárido. É ali que vivem e produzem Robeilda Santos Brito e Leandro dos Santos Lima, agricultores familiares que, ao lado dos filhos Luan Gabriel, Samuel e Sarah, vêm construindo uma trajetória marcada pela persistência, inovação e valorização dos recursos da própria terra.
Há quinze anos, quando decidiram iniciar a produção de hortaliças, Robeilda e Leandro tinham apenas a coragem para trabalhar, a vontade de crescer e a água de um pequeno barreiro escavado manualmente pelo pai de Leandro, bem em frente à casa da família.
Era dessa aguada simples que nasciam os primeiros pés de coentro, alface, cebolinha e outras hortaliças que abasteciam a feira livre de Santaluz. O trabalho era intenso. Com o passar dos anos, o casal conseguiu construir um segundo barreiro e adquirir uma bomba para auxiliar na irrigação. Ainda assim, boa parte da rega precisava ser feita manualmente.
Todos os dias, aproximadamente três horas eram dedicadas ao transporte de água em regadores para garantir a sobrevivência das plantas. “Era muito cansativo, mas a gente nunca desistiu”, recorda Robeilda.
Hoje, olhando para os canteiros verdes e produtivos que ocupam a propriedade, é difícil imaginar o quanto o trabalho era mais pesado. A mudança começou em 2024, quando a família recebeu, pela primeira vez, o acompanhamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) através do Projeto Semear/ATER Biomas, executado pela Fundação APAEB com recursos da SDR/Bahiater. A família também foi beneficiada pelo Programa Fomento Rural, uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) voltada ao fortalecimento produtivo e à inclusão socioeconômica de famílias rurais em situação de vulnerabilidade.
O Lume revelou caminhos invisíveis

Aplicação do estudo do agroecossistema de Robeilda e Leo através do Método LUME, em 2024
Logo nas primeiras visitas, a equipe técnica aplicou o estudo Lume, uma metodologia de análise econômico-ecológica dos agroecossistemas utilizada pela Fundação APAEB por meio dos projetos e processos formativos desenvolvidos junto à Rede ATER Nordeste de Agroecologia. A ferramenta permite compreender o funcionamento dos sistemas produtivos familiares, identificar fluxos econômicos, ecológicos e sociais e apontar os pontos mais estratégicos para investimentos e melhorias capazes de fortalecer a sustentabilidade e a geração de renda nas propriedades rurais.
Naquele momento, Robeilda tinha uma ideia clara sobre onde aplicar recursos: construir um muro para impedir a entrada dos sapos que frequentemente cavavam os canteiros. Mas o diagnóstico mostrou outro caminho.

Entrega de bomba de água que possibilitou a ampliação da irrigação
A análise revelou que o maior gargalo da propriedade estava na irrigação. A equipe técnica orientou o redimensionamento da bomba e da rede de encanamento, permitindo ampliar a área irrigada e reduzir drasticamente o tempo gasto na rega manual.
“Eu pensava em resolver um problema que eu via todos os dias. O Lume mostrou um problema maior e uma solução que trouxe muito mais resultado”, conta Robeilda.
Convencidos pela análise técnica, o casal investiu na nova bomba e nas tubulações. O resultado foi imediato: mais eficiência, menos esforço físico e mais capacidade de produção.

Aguada ampliada com crédito rural do Agroamigo
O acompanhamento da equipe também incentivou a família a buscar financiamento junto ao Agroamigo, do Banco do Nordeste, para ampliar a capacidade de armazenamento de água da propriedade, fortalecendo ainda mais a segurança hídrica do sistema produtivo.
Produzir mais cuidando do solo
As transformações não ficaram apenas na irrigação. Outro passo importante veio com as orientações para recuperação e fortalecimento da fertilidade do solo. A família passou a utilizar pó de brita, resíduo de sisal e melaço de cana, aplicados tanto no solo quanto via foliar.

Práticas adotadas pela família para reforçar a qualidade do solo – pó de brita e resíduo de sisal
Os resultados surpreenderam. As hortaliças passaram a apresentar melhor desenvolvimento, crescimento mais rápido e maior qualidade para comercialização.
A experiência reforçou a confiança da família nos insumos naturais. Anos antes, eles haviam sofrido grandes prejuízos após utilizar um adubo externo que comprometeu boa parte da produção.
Hoje, a propriedade é reconhecida justamente pelo cuidado com práticas agroecológicas e recentemente conquistou o selo de agricultura orgânica.
Quando a produtividade gera oportunidades
Com mais produção e maior renda, novos sonhos começaram a se tornar possíveis.
A área cultivada passou de 0,24 hectare para 0,5 hectare. A ampliação aconteceu em um período estratégico. “No tempo da seca ninguém tinha água. A gente tinha. Produzimos, vendemos coentro e conseguimos comprar mais terra para produzir mais”, relata Leandro, conhecido por todos como Léo.
A área cultivada passou de 0,24 hectare para 0,5 hectare. A ampliação aconteceu em um período estratégico. “No tempo da seca ninguém tinha água. A gente tinha. Produzimos, vendemos coentro e conseguimos comprar mais terra para produzir mais”, relata Leandro, conhecido por todos como Léo.
Segundo o coordenador do Projeto Semear e engenheiro agrônomo Ernesto Gomes, a evolução da família está diretamente ligada à capacidade de experimentar e aplicar novos conhecimentos.”Robeilda e Léo são agricultores pesquisadores. Eles escutam as orientações, testam, observam os resultados e, quando percebem que funciona, incorporam as práticas ao sistema produtivo. Essa evolução mostra o quanto eles aproveitam a assistência técnica para fortalecer o agroecossistema.”
Descobrindo riquezas que antes se perdiam
O estudo Lume também ajudou a família a enxergar oportunidades que estavam literalmente caindo no chão. Uma delas foi a seriguela.

A comercialização das seriguelas revelou uma nova fonte de renda para a família.
Durante anos, grande parte da produção da fruta era desperdiçada. Após as reflexões provocadas pelo diagnóstico do agroecossistema, o casal passou a comercializar a fruta.
O resultado foi tão significativo que a renda obtida com a venda das seriguelas garantiu, no último ano, a compra dos materiais e mochilas escolares dos filhos.
Outra descoberta surgiu com o coentro. Robeilda começou a testar a desidratação da erva para produção de tempero em pó. A experiência deu certo e a agricultora já planeja incorporar o novo produto à sua banca de comercialização, agregando valor à produção e diversificando as fontes de renda da família.
Produção diversificada e integração dos sistemas

Representação da ampla diversidade produtiva do agroecossistema de Robeilda e Leo
Além das hortaliças, o agroecossistema da família reúne uma ampla diversidade de culturas.
São produzidos e comercializados leguminosas, raízes, grãos, mudas e frutas. A família também cria galinhas, utilizando o esterco dos animais na fertilização das hortas e aproveitando os resíduos das hortaliças na alimentação das aves.
A curiosidade e a disposição para experimentar novas possibilidades produtivas também fazem parte da rotina da família. Ao longo dos anos, Robeilda e Léo realizaram testes com diferentes culturas e conseguiram produzir até mesmo uva e café na propriedade, experiências que demonstram o potencial produtivo do agroecossistema quando manejado com cuidado, observação e conhecimento.
Trata-se de um sistema integrado onde praticamente tudo é aproveitado, reduzindo custos e fortalecendo a sustentabilidade da produção.
Os produtos são comercializados na feira livre de Santaluz, além de abastecer outros feirantes e dois hortifrutis do município.
O próximo desafio é acessar mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), ampliando ainda mais as oportunidades de comercialização. Para isso, uma das estratégias previstas é promover uma visita à propriedade envolvendo representantes das Secretarias Municipais de Agricultura de Valente e Santaluz, além de membros dos Conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional e do Conselho de Alimentação Escolar, aproximando a experiência da família dos programas públicos de compra de alimentos.
Uma família que cultiva alimentos e futuro
A força da propriedade também está nas pessoas. Pais de Luan Gabriel, Samuel e Sarah, Robeilda e Léo construíram uma dinâmica familiar baseada na cooperação.

Samuel Brito, filho do casal de agricultores e agente do Programa Despertar
O casal relata que os filhos participam das atividades domésticas e que contam com o apoio constante da mãe de Robeilda.
Samuel Brito, de 11 anos, estudante da Escola Municipal Eutrópio Ramos de Oliveira, é também agente do Programa Despertar, fortalecendo desde cedo sua relação com a educação contextualizada e o cuidado com o meio ambiente.
Mesmo com a intensa rotina na propriedade, Robeilda encontra tempo para administrar sua lanchonete, produzir salgados para eventos e manter um compromisso que considera indispensável: todas as terças-feiras, jogar futebol com as companheiras da comunidade.
O fortalecimento desse empreendimento também recebeu impulso do Projeto Semear. Por meio do Programa Fomento, Robeilda teve acesso a recursos que foram investidos na aquisição de equipamentos para sua lanchonete, ampliando sua capacidade de produção e melhorando as condições de trabalho.
O investimento contribuiu para diversificar as fontes de renda da família e fortalecer o protagonismo feminino dentro do agroecossistema. A experiência demonstra como o acesso articulado à assistência técnica, ao fomento produtivo e às políticas públicas pode gerar impactos que vão além da produção agrícola, alcançando outras atividades econômicas desenvolvidas pelas famílias rurais e ampliando suas possibilidades de geração de renda e autonomia.
ATER que transforma vidas
A trajetória da família de Robeilda e Leandro demonstra que a assistência técnica vai muito além de recomendações produtivas.
Quando associada ao conhecimento acumulado pelas famílias agricultoras e a ferramentas como o Lume, a ATER se torna capaz de revelar potencialidades, orientar investimentos mais eficientes, reduzir riscos e ampliar oportunidades de geração de renda.
Mais do que aumentar a produção, o Projeto Semear ajudou a família a enxergar novas possibilidades dentro do próprio agroecossistema. A orientação técnica permitiu otimizar o uso da água, fortalecer a fertilidade do solo, diversificar a produção, agregar valor aos produtos e ampliar as fontes de renda da família.
Em cada canteiro irrigado, em cada maço de coentro vendido, em cada siriguela aproveitada e em cada novo empreendimento fortalecido, está a prova de que conhecimento, assistência técnica e trabalho coletivo continuam sendo sementes capazes de transformar realidades.
Na comunidade de Boi Novo, essa transformação tem nome, rosto e história. Uma história construída pela força de uma família agricultora que encontrou na ATER, no estudo Lume e no Projeto Semear ferramentas para cultivar não apenas alimentos, mas também prosperidade, autonomia e esperança para as próximas gerações.






